Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Rastreadas rotas migratórias de pequenas aves

Tordo-do-bosque macho com seus filhotes (no alto) e fêmea de andorinha-azul (abaixo), ambos com um geolocalizador preso às costas (fotos: Elizabeth Gow/ Tim Morton).

Recente artigo da Science relata o rastreamento das rotas migratórias da andorinha-azul (Progna subis) e do tordo-do-bosque (Hylocichla mustelina) através de geolocalizadores baseados em níveis de luminosidade.

Nos geolocalizadores a latitude é estimada através da duração dia/noite e a longitude através do horário do meio dia em relação ao GMT. Também não transmitem informação, apenas a armazenam. Exigem portanto que a ave com o aparelho seja recuperada. Apesar destas limitações em relação a outras técnicas de rastreamento, este estudo conseguiu dados inéditos.

Veja notícia completa em http://cienciahoje.uol.com.br/137904

Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

A aplicação da ciência na conservação da biodiversidade


Canal do Porto de Santos, SP

Devido a crescente preocupação com a questão ambiental, alguns instrumentos têm sido desenvolvidos na tentativa de conciliar desenvolvimento econômico e conservação do meio ambiente. Por exemplo, obras realizadas em território brasileiro e com potencial de causar impactos ambientais significativos, tais como hidrelétricas, aterros sanitários, estradas e muitas outras requerem a realização de Estudos de Impacto Ambiental (EIA). Este tipo de estudo deve, entre outras coisas, prever os impactos potenciais e sugerir medidas que possam reduzi-los. Além disso, é comum que os órgãos competentes exijam a realização de monitoramentos de fauna e flora como condição para a aprovação de obras potencialmente impactantes. Estes monitoramentos devem, em tese, avaliar as populações de animais ou plantas antes, durante e depois da execução das obras. Monitoramentos bem planejados e executados são, na minha opinião, a melhor maneira de entender e quantificar os impactos gerados pelas atividades humanas.

No entanto, proponho a seguinte questão: as informações geradas nos estudos de impacto e monitoramentos têm reduzido os impactos de obras subseqüentes? Receio que a resposta para a grande maioria dos casos seja não. Portanto, estes instrumentos não têm cumprido seu papel de conciliar desenvolvimento e conservação do meio ambiente. Os fatores que explicam este padrão são complexos e passam por várias esferas político-sociais. No entanto, acredito que um dos fatores que contribuem para essa falha é a falta de aplicação de ciência básica nos monitoramentos ambientais. Grande parte dos monitoramentos não tem sua coleta de dados cuidadosamente planejada, resumindo-se a uma lista de espécies.

Um grande desafio para os profissionais que atuam na área ambiental é, portanto, aplicar o rigor cientifico acadêmico nos monitoramentos, de forma que cada obra realizada gere conhecimentos para que as próximas tenham menos impactos do que as precedentes. Para atingir estes objetivos, cada programa de monitoramento deve sugerir medidas de conservação práticas baseadas em seus resultados. Estas medidas devem então ser implementadas em obras futuras, e sua eficiência ser testada durante monitoramentos bem planejados. Desta forma, uma série de ações práticas eficientes para reduzir impactos ambientais pode ser desenvolvida em médio prazo.

Mas como obter informações biológicas confiáveis? Algumas iniciativas têm sido realizadas no Brasil, tal como o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais PDBFF, o Programa de Pesquisa em Biodiversidade PPBio, e as pesquisas do grupo Tropical Forest Research, na Amazônia, e o RestaUna e o Biota Caucaia na Mata Atlântica . Diferentes regiões do país vivem distintos desafios ambientais, e a ciência da conservação da biodiversidade está em pleno desenvolvimento (ver um interessante debate aqui).


Reserva do PDBFF, Manaus, AM.

É evidente que para serem realizados monitoramentos com rigor cientifico os pesquisadores devem ter condições de trabalho adequadas. Estes também devem se aprimorar continuamente. Conciliar desenvolvimento econômico e conservação do meio ambiente já não é apenas uma frase de efeito. É uma questão de sobrevivência. O desafio está lançado.

Sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

Mata de terra firme II

Mais registros em Juína e Brasnorte, MT, em floresta de terra firme:

Ipecuá - Thamnomanes caesius

Flautista-da-mata - Microcerculus marginatus
Guarda-mata - Hylophylax naevius

Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

Mata de terra firme

Algumas registros com redes ornitológicas em uma mata de terra firme, Juína, MT

Myrmotherula hauxwelli (macho):


Myrmotherula leucophtalma (fêmea):

Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

Pesquisa básica: uma questão de visão a longo prazo.

(Ilustração de Dinho Fonseca)

Tenho ouvido comentários em diversos meios questionando a utilidade de pesquisas acadêmicas básicas, isto é, que não apresentam aplicações práticas imediatas. Algumas pessoas alegam que o financiamento de pesquisas básicas com recursos públicos seria um desperdício do seu dinheiro, ó contribuinte. Sustento que tal visão é equivocada. Avanços tecnológicos gerados por pesquisas aplicadas dependem do conhecimento gerado por pesquisas básicas. Teorias no ramo da física, química, geociências e muitas outras estão “escondidas” atrás de avanços tecnológicos. O conhecimento, assim como um muro, depende de cada tijolo para se manter. Como seria possível construir uma edificação estável sem alicerces sólidos? De fato, incentivos para a aplicação prática do conhecimento científico são bem vindos, desde que não prejudiquem ou inibam pesquisas básicas. Os dois tipos de pesquisa devem coexistir, como duas faces da mesma moeda. A pesquisa básica de hoje é a base da aplicação de amanhã. Trata-se de uma questão de estratégia e visão de longo prazo. Países sérios investem em pesquisa básica. Outros países contentam-se em comprar tecnologia...

Leia o artigo de Osvaldo Ubríaco Lopes na revista Estudos Avançados.

Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

Pretinho na Chapada dos Parecis, MT

O pretinho Xenopipo atronitens é uma ave da família Pipridae associada a vegetação de campina (Poletto e Aleixo, 2005). Até onde pude pesquisar, sua ocorrência mais austral no Brasil se dá no sudoeste de Rondônia e no sul do Amazonas. Capturei e anilhei os indivíduos das fotos na Chapada dos Parecis, centro-norte do Mato Grosso, em ambiente de Cerradão (savana arbórea densa) próximo ao rio Juruena. Parece-me que tal registro implica em uma considerável ampliação de distribuição da espécie em direção ao sul, pelo menos no Brasil. Xenopipo já foi registrado em latitude semelhante na Bolívia, na Serrania de Huanchaca, departamento de Santa Cruz.
O cerradão típico do alto Juruena, apesar de apresentar solo arenoso, difere da campina tanto na composição quanto na estrutura da vegetação. No entanto, parece apresentar afinidades biogeográficas com campinas e demais florestas de solo arenoso amazônicas, pois compartilha mais algumas espécies com estas fitofisionomias. Nas fotos estão representados um macho (preto) e uma fêmea (verde). Caso alguém conheça registros "sulinos" da espécie por favor me avise.
Não é preciso dizer que quase nada se sabe sobre a biologia de Xenopipo atronitens. Na Chapada dos Parecis a espécie é bastante comum, sendo uma das três espécies mais capturadas nas minhas redes ornitológicas. Como os demais membros da família, alimenta-se de frutos. Em junho de 2006 indivíduos de Xenopipo estavam alimentando-se dos fruto das fotos abaixo.

Inclusive pude constatar que indivíduos da espécies defecam as sementes do tal fruto, sendo portanto, dispersores potenciais desta planta, a qual Infelizmente não fui capaz de identificar.

Bibliografia
Polleto F. e Aleixo, A. 2005. Implicações biogeográficas de novos registros ornitológicos em um enclave de vegetação de campina no sudoeste da Amazônia brasileira. Revista Brasileira de Zoologia 22:1196-1200.




Segunda-feira, 30 de Outubro de 2006

Corythopis cf torquatus


Esta ave pertence ao gênero Corythopis. Sua identificação exata não é trivial, pois existem duas espécies neste gênero, cujas plumagens sâo muito parecidas. A grosso modo, C. delalandi ocupa a porção sul do país, enquanto que C. torquatus ocupa a parte norte, incluindo a Amazônia. Existe, porém, uma faixa relativamente pequena no Brasil central onde as duas espécies podem ser encontradas juntas. É justamente o caso do local onde capturei este indivíduo, no alto rio Juruena, no oeste do MatoGrosso.

Provavelmente trata-se de um indivíduo de C. torquatus, a espécie que ocupa o norte do Brasil. Uma evidência que aponta para este veredicto é a coloração acinzentada que o espécime apresenta ao redor da região ocular, característica não compartilhada pelo congênere do sul. A vocalização é um caráter importante para discernir as duas, pois apesar da semelhança na plumagem, cada uma apresenta vocalização característica. Na área onde ocorreu a captura pude ouvir a vocalização da espécie do norte.

Quinta-feira, 24 de Agosto de 2006

A ocupação humana


As florestas ao sul da cidade de São Paulo vêm perdendo terreno aceleradamente. A expansão de atividades de mineração e agricultura, mas principalmente a expansão de bairros carentes superpulosos, em sua maioria clandestinos, são uma grande ameaça à estas florestas. Os impactos desta expansão projetam-se para além das áreas diretamente desmatadas, extendendo-se para as matas que ainda estão de pé. Estas, vizinhas a áreas superpopulosas, estão perdendo sua fauna através de caça e captura de animais (veja o post "caçadores" abaixo). Assim, fotos aéreas ou imagens de satélite subestimam os danos causados pela expansão humana ao retratar verdes florestas vazias de grande parte de seus animais. E sem eles a floresta não se manterá por muito tempo...

Quinta-feira, 15 de Junho de 2006

Chupa Dente

O chupa-dente (Conopophaga lineta) é uma pequena ave florestal que vive próxima ao chão e se alimenta de insetos. É muito abundante nas matas do planalto paulista. Nas terras baixas litorâneas do Estado de São Paulo é substituída por uma correlata, o cuspidor-de-máscara-preta (Conopophaga melanops). Poucos são os registros do chupa-dentes na baixada. Também poucos são os registros do cuspidor no planalto. Curiosamente em matas de Cubatão, localidade litorânea, ambas podem ser encontradas lado à lado. Anilhei alguns indivíduos de ambas as espécies, porém recuperei apenas alguns cuspidores.


Certa vez capturei um macho de cuspidor ao lado de um chupa-dente em plumagem de fêmea.Trabalhando na área desde outubro de 2004, comecei a registrar periodicamente o chupa-dentes na região à partir de agosto de 2005, dando-me a impressão de uma colonização. As espécies do gênero são sedentárias, ou seja, não são conhecidos por empreenderem movimentos migratórios. Enquanto o cuspidor-de-máscara-preta é conhecido por ser sensível a degradação de seu hábitat, o chupa-dente chega a se favorecer em matas medianamente degradadas pelo homem. Será que o estado de degradação no qual se encontram as matas de Cubatão favorecem de alguma forma a ocupação do local pelo chupa-dente?


Quinta-feira, 13 de Abril de 2006

Caçadores


Março de 2006, Bororé, extremo sul de São Paulo. A fronteira entre a perferia pobre urbana e a zona rural, as margens da represa Billings (Veja imagem do local no post "Ocupação humana" acima). As matas desta região, como as de muitas outras do Brasil, estão repletas de arapucas e armadilhas para animais selvagens. Este é apenas um dos muitos giraus (ou trepeiros) que encontrei por lá. Consistem de plataformas de espera sobre árvores. No chão é colocada uma ceva, geralmente milho, que atrai a caça para ser abatida pelo paciente caçador. Curioso é que no local haviam pouquíssimas aves. De manhã cedo, quase não ouvi cantos. Tive a sensação de estar em uma "floresta vazia", parafraseando Redford. E a mata até que tinha uma boa estrutura, árvores grandes, antigas, além de ser bem conectada com as matas contínuas da Serra do Mar. Até um vale bem úmido, com um rio corrente, não me revelou muitas espécies.
Visto que já visitei muitos outros lugares de matas fragmentadas e com estruturas piores, e que tinham muito mais "bichos", me ficou a pergunta: Será que a caça e captura de animais esvaziou esta floresta? Impressionante, nunca vi isto, pelo menos não neste
grau.