
Canal do Porto de Santos, SP
Devido a crescente preocupação com a questão ambiental, alguns instrumentos têm sido desenvolvidos na tentativa de conciliar desenvolvimento econômico e conservação do meio ambiente. Por exemplo, obras realizadas em território brasileiro e com potencial de causar impactos ambientais significativos, tais como hidrelétricas, aterros sanitários, estradas e muitas outras requerem a realização de
Estudos de Impacto Ambiental (EIA). Este tipo de estudo deve, entre outras coisas, prever os impactos potenciais e sugerir medidas que possam reduzi-los. Além disso, é comum que os órgãos competentes exijam a realização de monitoramentos de fauna e flora como condição para a aprovação de obras potencialmente impactantes. Estes monitoramentos devem, em tese, avaliar as populações de animais ou plantas antes, durante e depois da execução das obras. Monitoramentos bem planejados e executados são, na minha opinião, a melhor maneira de entender e quantificar os impactos gerados pelas atividades humanas.
No entanto, proponho a seguinte questão:
as informações geradas nos estudos de impacto e monitoramentos têm reduzido os impactos de obras subseqüentes? Receio que a resposta para a grande maioria dos casos seja não. Portanto, estes instrumentos não têm cumprido seu papel de conciliar desenvolvimento e conservação do meio ambiente. Os fatores que explicam este padrão são complexos e passam por várias esferas político-sociais. No entanto, acredito que um dos fatores que contribuem para essa falha é a falta de aplicação de ciência básica nos monitoramentos ambientais. Grande parte dos monitoramentos não tem sua coleta de dados cuidadosamente planejada, resumindo-se a uma lista de espécies.
Um grande desafio para os profissionais que atuam na área ambiental é, portanto, aplicar o rigor cientifico acadêmico nos monitoramentos,
de forma que cada obra realizada gere conhecimentos para que as próximas tenham menos impactos do que as precedentes. Para atingir estes objetivos, cada programa de monitoramento deve sugerir medidas de conservação práticas baseadas em seus resultados. Estas medidas devem então ser implementadas em obras futuras, e sua eficiência ser testada durante monitoramentos bem planejados. Desta forma, uma série de ações práticas eficientes para reduzir impactos ambientais pode ser desenvolvida em médio prazo.
Mas como obter informações biológicas confiáveis? Algumas iniciativas têm sido realizadas no Brasil, tal como o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais
PDBFF, o Programa de Pesquisa em Biodiversidade
PPBio, e as pesquisas do grupo
Tropical Forest Research, na Amazônia, e o
RestaUna e o
Biota Caucaia na Mata Atlântica . Diferentes regiões do país vivem distintos desafios ambientais, e a ciência da conservação da biodiversidade está em pleno desenvolvimento (ver um interessante debate
aqui).

Reserva do PDBFF, Manaus, AM.
É evidente que para serem realizados monitoramentos com rigor cientifico os pesquisadores devem ter condições de trabalho adequadas. Estes também devem se aprimorar continuamente. Conciliar desenvolvimento econômico e conservação do meio ambiente já não é apenas uma frase de efeito. É uma questão de sobrevivência. O desafio está lançado.